Luiz Nogueira Barros
   
   
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TEATRO




21/11/2009 - 21h01min

As Bodas do Senhor Prudente - ATO II


Fonte: Luiz Nogueira

Mesmo ambiente. Marinita entre e olha para o relógio: 14 horas. Mexe em alguns objetos.


MARINITA

- Duas da tarde!.(Nesse momento os filhos do Sr.Prudente estão voltando do almoço. Sentam-se no sofá e cadeiras. Marinita se retira)


FERNANDO

- Como estava bom aquele sururu! Fez-me lembrar dos velhos tempos.


MARCOS

- Mas o peixe não deixou por menos. Alías, peixe sempre foi especialidade da mamãe.


ANTONIO

- Claro. Feijoada sempre foi coisa do nosso pai. Era quase um ritual. Ele passava dias e dias preparando o material. Ainda vai sair feijoada. É só esperar.


TÁCITO

- Evidentemente que sim. Ele ganhava mal. A solução era a feijoada. Mas que era gostosa, isso era. Ninguém pode negar.


FERNANDO

- Principalmente depois das orações espíritas , rezadas silenciosamente. E que somente ele entendia.


ANTONIO

- Bom mesmo era a fiscalização dos lapis. Ele cortava um lapis em dois e dava um pedaço para cada um de nós.


MANOEL

- E nos fiscalizava no final de semana: cuidado, lapis está muito caro. E vocês são muitos !...


FERNANDO

- Ganhando mal e comprando em armazém reembolsável ele não tinha outra saída. O problema pior era que, ao conferir o lapis, também conferia os nossos trabalhos escolares.


ANTONIO (Rindo)

- E aí era sempre eu quem pagava o pato. Jamais consegui ser bom aluno.


MANOEL

- Coisas da vida. Nem todos gostam de estudar. Essas lembranças, hoje, até se tornam engraçadas.


ANTONIO

- Mas minha cabeça ainda arde dos cascudos que ele me dava. Eu tinha culpa, isso é verdade.


MANOEL

- Por que não falamos de outras coisas ?


ANTONIO

- Não estou censurando o meu pai. No fundo eu era o mais louco de todos nós, sei disso.


MANOEL

- Não estou falando disso. Foi que de repente me veio uma lembrança do Edésio e Margarida. Dos sarapatéis que todos os anos ela me prepara, quando eu vinha de férias. Sem contar, é claro, das garrafas de mel de abelha que ganho de presente.


FERNANDO

- Comigo também eles faziam muitos mimos. Vou visita-los.


TÁCITO

- Com todos nós.


RICARDO

- Como é bom recordar. Parece até que estamos muito envelhecidos.


MANOEL

- Eu já estou...(Risos)


RICARDO

- Hoje vou visitar a catedral.


TÁCITO

- Vou ter que passar na Ordem dos Advogados.


FERNANDO

- Também vou passar no quartel do Exército.


ANTONIO

- Cada um de nós vai ter muito o que fazer.


MANOEL

- Isso é muito bom.Também reverei amigos.


TÁCITO

- O meu pai me falou que a livraria do Enéas acabou de fechar e em seu lugar abriram uma malharia, dessas que vendem tecidos populares e outras coisas.


FERNANDO

- Vai fazer falta. Muita falta.


MANOEL

- Nossa! E que falta vai fazer.


TÁCITO

- A livraria era uma espécie de academia livre.


FERNANDO

- Quem não passou por ali para uma boa discussão?


ANTONIO

- Ou então para "xeretar". O meu caso, é claro. Principalmente naquele dia que o Tácito discutiu com um velinho, que tenho a impressão, era um desembargador.


TÁCITO

- Você ainda se lembra disso ?.


ANTONIO

- Claro.Fomos ali conferir uma relação de livros. Depois você me mandou para casa. Mas fiquei observando.


TÁCITO

- De fato foi assim. Era um senhor idoso. Um desembargador, sim. Muito fino, educado. Baixinho. Usava espécie de chapeu do Panamá, penso. Não se libertava de um guarda-chuva. Eu garganteava tudo o que sabia. Ele me olhava com paciência. Num certo momento apontou para o céu e me perguntou: você acha que os homens são iguais? E que, lá no céu, ficarão todos ao lado de Deus?


RICARDO

- Também andei por ali. E chego a pensar se as minhas primeiras inquietações teológicas não nasceram das leituras dos livros que ali comprei.


MANOEL

- Mas você, Tácito, o que respondeu ao desembargador ?


TÁCITO

- Eu andava numa fase um tanto ateísta. Aquela história da Revolução Francesa, de liberdade, igualdade e fraternidade me parecia alguma coisa séria. Fui ríspido com o bom velhinho. Mas ele não se preocupou. Apenas riu e me disse que o tempo me curaria.


ANTONIO

- Eu nunca acreditei nessas besteiras. Sempre, do mínimo que entendi, a Revolução Francesa foi altamente empulhativa.


MANOEL

- Calma.Também não precisa se afobar.


FERNANDO

- Calma. Você é prático demais.


RICARDO

- Antonio pode exagerar. Mas que ela foi altamente materialista, isso foi. O Iluminismo, dos franceses, serviu ao velho nacionalismo francês. Eles acabaram com o teocentrismo e criaram o antropocentrismo.Tiraram Deus do centro do universo e das coisas e colocaram o homem. Sonharam o paraíso na Terra. E as coisas estão aí, confusas...até hoje.


TÁCITO

- Não vai demorar e isso aqui estará se transformando numa academia.


FERNANDO

- Mas pelo menos ela nos deixou a democracia.


ANTONIO (Rindo)

- E que democracia !


FERNANDO

- Não me diga que você agora é contra a democracia.


ANTONIO

- Sou comerciante. Sobrevivo em qualquer regime. Claro que prefiro o que estamos vivendo. Nunca fui estudioso, mas sempre li alguma coisa. Churchil estava certo: a democracia é o pior dos regimes, exceto os outros...( E dá uma boa gargalhada)


MANOEL

- Volto a insistir sobre as nossas recordações. Mas penso que as nossas discussões podem continuar.


RICARDO (Interrompendo, pensativo)

- Muitas vezes me pergunto se as minhas inclinações não nasceram da dureza religiosa do meu pai.


ANTONIO

- Ou da indiferença da nossa mãe, que tudo aceitava sem resistir. O nosso pai era muito rígido naquela história de espiritismo. A mamãe era católica.


TÁCITO (Um tanto alheio)

- Por onde andará a alma daquele velhinho, o desembargador?


ANTONIO

- No céu,é evidente.O homem há de ter chegado lá pela paciência, tudo o que ele tinha para gastar.


MANOEL (Rindo)

- O lugar mais certo,é claro.Deve ser um bom lugar.


RICARDO (Rindo)

- E quem sabe, sentado ao lado de Deus.


ANTONIO

- Está aí um lugarzinho que eu desejava saber como é. Será que existe? Mutas vezes tenho dúvidas. Parece-me que o desembargador se chamava...já nem me lembro...deixa p´rá lá...


FERNANDO

- Eu naõ tenho dúvidas sobre o céu.


RICARDO

- Existe, sim. Não essa coisa mecânica. Mas uma coisa que se incorpora a nós, no ato de morrer. Um estado de espírito que nos prepara para o paraíso. Não adianta discutir a geografia do céu, seus lugares, etc...etc.

ANTONIO ( Interrompendo os diálogos, inesperadamente e misterioso, olhando para Mabel, até agora sem dizer uma palavra e apenas olhando na direção dos irmãos)

-Preciso fazer-lhes uma enorme revelação, principalmente para Mabelzinha...


MABEL (Assustada)

- Nossa, você me assustou..


MANOEL (olha para todos os irmãos. Está muito sério. Volta-se para Mabel)

- Tenho uma revelação muito importante a lhe fazer: (Todos se entreolham. Manoel está muito calmo e continua )

- Fui eu, Mabelzinha, quem pediu a todos os seus irmãos para se comportarem do jeito que se comportaram. As coisas estavam muito tumultuadas. Correndo para todos os lugares, com alguma certeza, eles terminariam dificultando, ainda mais, a situação de Robertinho...

(Neste momento todos demonstram espanto, mas aliviados pela revelação de Manoel. )


MABEL (Perplexa)

- Tudo tramado ?


MANOEL

- Que importa o nome que você vai dar a isso ? O que importa é que uma família, que deu a maioria dos seus filhos para sociedade estava impotente. Quer dizer: não havia sido considerada. Nem mesmo a idade dos nossos pais foi levada em conta. E olhe que meu pai foi um militar exemplar.Sem contar o Fernando, que tmbám é militar.) Volta-se para os irmãos e fala, com gestos bem calmos ) Peço que vocês saiam. Preciso ter uma conversinha com Mabel.Depois voltaremos a nos falar. Por favor ! ( Todos obedecem. Olham para Mabel, e saem, um a um. Manoel faz um gesto para que Mabel venha para mais perto. E até lhe pede que coloque a cabeça sobre o seu joelho, passando a alisar os seus cabelos. Mabel o atende )


MABEL (Desconsolada)

- Razões de Estado ?


MANOEL

- Razões de Estado, sim.Mas, principalmente, familiares Eu também fui objeto de observações, equívocos e essas coisas todas. Nem imagine que fui um santo, em tudo isso. Fui ativista, sem compromissos partidários, estritos.


MABEL

- Como ?


MANOEL

- Numa das minhas viagens, quando voltei ao Rio, havia sido demitido da chefia do posto de saúde onde trabalhava.


MABEL (Assustada)

- Você nunca me falou sobre isso.


MANOEL

- O que mudaria, se eu lhe houvesse falado ? Você era uma adolescente.


MABEL

- É verdade! Mas tinha alguma coisa , realmente, com a situação de Robertinho? Você verificou ?


MANOEL (Ri com suavidade)

- Nem precisava. Não poderia haver outro motivo. E ainda me lembro de que os meus colegas queriam fazer um movimento de resistência contra a minha demissão


MABEL

- Você aceitou ?


MANOEL

- Claro que não. Seria inócua, tal atitude. E mesmo, pouquíssimos colegas sabiam do meu parentesco com Robertinho. Eu não desejava envolvê-los numa coisa, a minha demissão, com outra, que era a prisão de Robertinho.


MABEL

- Nunca lhe deram explicações.


MANOEL

- Nem as procurei. Continuei trabalhando normalmente, como médico, no ambulatório.


MABEL

- Que covardia, meu irmão.


MANOEL

- Para nós dois. Para eles, talvez, pura precaução.


MABEL

- Precaução ? Mas que tolice, Manoel?


MANOEL (Brinca com os cabelos de Mabel)

- Vamos mudar de assunto. Há coisas mais importantes, que eu preciso saber.


MABEL

- Estou ? s ordens.


MANOEL

- Por exemplos: como você pensa, ainda hoje, sobre os seus irmãos. Mágoa, ? parte. E também, o que você se lembra de 1964.


MABEL (Muda de posição. parece um pouco assustada)

- Bem...


MANOEL

- Ah! Tem uma condição: você não vai me falar como revolucionária. Mas sim como a minha irmãzinha querida, por favor...


MABEL

- Meu pai nunca lhe falou nada?


MANOEL

- Tenho algumas versões que ele me passou. Mas preciso ouvir as suas. Quem esteve e ainda está em crise é você. O nosso erro foi imaginar que você não havia crescido, tornado-se uma moça.Uma universitária, recentemente.


MABEL (Levanta-se. olha ao redor.volta-se para Manoel)

- Claro que ainda estou magoada. Eu odiei o Estado, que tinha os nossos irmãos a seu serviço. E mais ainda porque não respeitou a idade dos meus pais.


MANOEL

- Já falamos sobre isso. Quero as suas lembranças.O Estado será sempre o Estado. Outro assunto ao qual poderemos voltar. E mesmo, Robertinho nãoestava tão inocente...


MABEL (Volta a sentar-se na borda do encosto de uma das poltronas. Olha para Manoel de um plano mais alto)

- São muitas. Robertinho vivia muito ansioso. Levava a vida a esconder papeis debaixo do colchão da sua cama. Eu não era tão criança. Algumas vezes passei a vista naqueles documentos. Para mim eram ininteligíveis. Mas recordo de que, muitos deles, falavam de propaganda comunista, de sindicados, de guerrilhas e outras tantas coisas.


MANOEL

- Quando você os lia entendia alguma coisa ?


MABEL

- Claro que não.Passados os anos é que pude entender que se tratava de material de agitação e propaganda revolucionária.


MANOEL

- E alguma vez ele lhe pegou mexendo nos papeis ?


MABEL

- Claro que não. Eu só fazia aquilo quando ele estava fora de casa.


MANOEL

- E o meu pai ? Nunca desconfiou ?


MABEL

- Claro. Ele farejava tudo. E lá um dia encontrou aquela montanha de papel. Foi só Robertinho chegar e o conflito começou.


MANOEL

- Posso imaginar como deve ter sido.


MABEL

- Não tenho certeza.


MANOEL

- Então prossiga.


MABEL (Desce da cadeira e senta-se no chão, defronte a Manoel e de costas para a platéia)

- Recordo-me apenas da última frase do meu pai: " ...se quer fazer revolução pegue as armas e vá para as montanhas, que você não é mais criança. Revolução não se faz pelas esquinas. Não posso aceitá-lo em casa, colocando nossa família em permanente risco. Sou um militar reformado e isso não seria justo. Eu e sua mãe estamos velhos demais para um choque dessa natureza. Lamento lhe dizer tudo isso..."


MANOEL (Parecendo desolado)

- Deve ter sido um momento terrível, para os dois. Nunca falamos isso, eu e o nosso pai. Seria incômodo para ele. E isso não poderia ser o principal motivo para a decisão de Robertinho que, já andava decidido. No máximo, o diálogo poderia ter apressado sua decisão. E até em respeito familiar. Nosso pai, feliz ou infelizmente protegia o que havia construído com tanto cuidado, a família que ele tanto amava e e continua amando.


MABEL (Pensativa)

- Tenho certeza disso, que nosso pai não foi ruim. Essa minha raiva do Estado. Foi coisa da minha adolescência. ( Pausa, mais ou menos longa). Dias depois, Robertinho pediu demissão do banco e sumia.


MANOEL

- O resto eu posso entender: somente com a notícia da sua prisão é que nosso pai ficou sabendo o que ele andava fazendo. Isso eu sabia. Mas o meu pai não me falou sobre a discussão.


MABEL

- Por que ele lhe omitiu ?


MANOEL

- Não sei. Talvez porque tenha sido um momento de intolerância, tanto dele, quanto do Robertinho. Feio teria sido se nosso pai fosse denunciar o próprio filho. Mas não, ele suportou tudo calado e tentando proteger o restante da família. E Robertinho, Mabelzinha, respondeu de modo brusco ao nosso pai?


MABEL

- Não ! Ficou num silêncio irreconhecível, sendo afobado como era. Quando meu pai percebeu a minha presença mandou que eu me retirasse. Nossa mãe tentou interferir e recebeu ordens para também se retirar. Ainda me lembro de quando ela chegou na sala, nervosa, sem uma palavra. E quando ainda me perguntou se eu sabia o que estava acontecendo.


MANOEL

- Então ela não soube do que houve entre o meu pai e Robertinho?


MABEL

- Tenho a impressão de que nunca soube. Tanto que, depois que Robertinho desapareceu, um dia, no jantar, ela perguntou para o meu pai onde ele andava.


MANOEL

- Ele respondeu ?


MABEL

- Claro que não. Foi evasivo, dizendo-lhe que Robertinho já era adulto e sabia o que estava fazendo. Que, mais dias menos dias ele daria notícias e que ela não se preocupasse.


MANOEL

- Você nunca disse para nossa mãe que eles haviam discutido?


MABEL

- Não. Meu pai me fez prometer que eu não falaria nada. Cumpri o que lhe prometi.


MANOEL

- Está claro que aquela frase do meu pai foi um momento de grande intolerância, acho que já falei isso, embora ele estivesse preocupado com a segurança da família e talvez já considerasse Robertinho tomado de uma decisão imatura mas irreversível.


MABEL

- E de grande convicção. Porque, a partir daquele momento, os dois não mais se falaram.


MANOEL

- É verdade. De grande convicção. Tanto que, Robertinho tomou a atitude que tomou. Naquele momento pai e filho deixaram de existir. Coisas da vida. Acontecem, infelizmente. Olhe o Estado e a Família em questão, em pauta, minha querida irmâzinha...


MABEL

- E contagiam. Passei muito tempo sem a noção de que meus outros irmãos fossem meus irmãos. Tinha muita dificuldade em imaginá-los como irmãos e heróis da minha infância. Mesmo adulta, ainda tenho dificuldades.Isso passará...creio.


MANOEL

- Chegamos ao que eu desejava. Você me diz exatamente o que eu esperava ouvir. Por isto, você vive em eterno conflito com seus irmãos.


MABEL

- Não dá para esconder.


MANOEL (Levanta-se. vai até o bar.Pôe um pouco de vinho num cálice. oferece-o a Mabel. Prepara outro cálice e faz sinal para Mabel. Ambos tomam o primeiro gole )

- Bom vinho ! Meu pai sempre adorou um bom vinho. Recordo do esforço que ele fazia para comprar um garrafa de vinho do Porto e queijo do Reino, ao menos no Natal.


MABEL

- O queijo ele liberava, Mas o vinho ele sempre escondia e somente oferecia a pouquíssimas pessoas. Um dia Antonio andou mexendo na sua garrafa de vinho. O meu pai falou seriamente com ele, advertindo-o sobre o uso da tal preciosidade...


MANOEL

- Antonio sempre foi um capeta. Mas o destino tem destas coisas. Mas tarde, Antonio era quem mandava, religiosamente, garrafas e garrafas de vinho do Porto para o nosso pai.


MABEL

- Meu pai não falava nada. Mas, durante a prisão de Robertinho, era de se estranhar a quantidade de vinho que ele bebia.

(Marinita entra, e se dirige para Manoel )


MARINITA

- Doutor Manoel, o senhor me desculpe. Mas tenho determinação de Dona Inocência para fazer algumas arrumações na sala. O senhor Prudente deseja que tudo ocorra certinho, na hora de cortar o bolo, na mesma hora e no mesmo minuto em que ele se casou.


MANOEL (Ri com suavidade)

- Está certo o Senhor Prudente. Mas ainda está muito cedo. Aguarde mais uma meia-hora, que estou conversando com Mabel.( Marinita pede desculpa, olha para Mabel e procura se retirar, enquanto Mabel lhe acena com a mão )


MABEL

- Adoro Marinita...


MANOEL

- Todos nós... ( o telefone toca. Manoel atende ) Tudo bem , meu pai. A Marinita já nos avisou. Não se preocupe que tudo sairá certinho, como o senhor deseja. Aproveite e dê lembranças ao padre Cavalcante, que os casou. ( volta-se para Mabel) Pelo jeito, parece que vamos ter que escolher outro local para conversarmos. Daqui a pouco os filhos de Fernando podem chegar por aqui e tudo vai piorar.


MABEL

- Ainda temos tantas coisas a conversar ?


MANOEL

- Claro que sim. Ainda não falamos sobre o comportamento dos nossos pais, dos noticiários da época, e nem do que você se lembra de 64...


MABEL (Está pensativa)

- Eu tinha doze anos. Meu pai, frequentemente, vivia em sessões espíritas. Minha mãe sempre ia ao Convento dos Capuchinhos. O que mais nos incomodava eram os jornais e os noticiários da televisão. Poderia até reproduzir, mentalmente, todo aquele inferno. E, se fosse possível, transmití-lo da minha para a sua mente.


( O palco escurece, em resistência. A televisão é ligada. Começa o noticiário, espécie de lembrança de Mabel do noticiário da época, com tanques rolando pelas ruas, políticos importantes dando declarações, sobretudo no Congresso Nacional, que decretou a vacância do poder, considerando Jango deposto, assumindo a Junta Militar, e depois Castelo Branco. Em seguida a estas cenas fazer, alternamdamente, noticiários sobre a prisão de Robertinho)


" Acaba de ser preso o terrorista Robertinho, na cidade do Recife. Trata-se de perigoso revolucionário. As notícias dão conta de que ele foi preso durante um cerco das forças armadas, e ao qual tentou resistir. Com a sua prisão espera-se chegar ao resto do grupo de ação armada. Aguardem novos noticiários, pois, dentro de alguns minutos teremos mais informações oficiais"


(televisão é desligada. a luz volta, em resistência)


MANOEL

- Tudo isto está muito vivo em nossa memória.



MABEL

- Até demais. E quando não era isso, eram os jornais. Os jornais locais falavam sobre pena de morte e prisão perpétua, quase todos os dias...


MANOEL

- O tema foi muito explorado por todos os jornais. E, claro, com mais ênfase pela televisão.


MABEL

- Meu pai escondia os jornais, após as suas leituras. Fazia de tudo para que a nossa mãe não os visse. E quando ela, instigada por algum vizinho inconveniente, tocava no assunto ele ria e dizia que tudo era uma tática política do novo governo para desestimular os que ainda não haviam sido presos.


MANOEL

- Uma boa desculpa, que até poderia ser verdadeira. Mas o que havia mesmo era uma guerra revolucionária. E a pena de morte poderia ter acontecido. Bem que poderia.


MABEL

- E Robertinho teria sido um exemplo, uma espécie de "bode expiatório..."


MANOEL

- Confesso-lhe que convivi com esta certeza, meses e meses. Tanto que, quando ele foi condenado ? " prisão perpétua ", fiquei perplexo, a um tempo, e a outro, com alguma esperança.


MABEL

- Aconteceu com todos nós. Marinita riu e debochou da tal condenação. Ainda recordo de suas palavras : " - " Perpétua ? Que idiotice ! A única coisa perpétua neste mundo é Deus. Até o mundo pode acabar. Logo as coisas vão mudar e Robertinho estará em casa, vocês vão ver..."


MANOEL

- Por vezes o instinto é superior ? inteligência. Não devia ser assim. Mas tem sido assim, sempre que os homens agem sem racionalidade. Contra a irracionalidade só há um remédio, a racionalidade. Marinita há de ter visto em tudo, os atos de Robertinho e os atos do governo, como coisas irracionais.


MABEL

Ela tem umas coisas estranhas. É como um animal que não sabe analisar as coisas, com muita exatidão, mas sabe mal, ou precariamente, o que fazer para se defender.


MANOEL

- Um genuíno e belo animal, a sua Nitiha. Talvez mais belo que o homem, dito racional. Só não sei se Marinita tem razão. Pelo menos, até agora, nada aconteceu que lhe dê razão. O governo nem mesmo liberou Robertinho para sair com os outros presos que foram trocados pelo embaixador americano, sequestrado e mantido em cativeiro até a liberação dos presos políticos. Entregou todos, menos Robertinho...


MABEL

- O regime militar há de terminar. Marinita tem razão: eterno e perpétuo só Deus. Essa é a vantagem da fé...


MANOEL

- Com certeza...


MABEL

- Para mim, que me criei desconfiando de Deus, tal a confusão entre o espiritismo do meu pai e o catolicismo da minha mãe e, como se não bastasse, a prisão de Robertinho e a descrença nos meus irmãos-heróis, a coisa ficou complicada. O tempo ía passando e tudo piorava...


MANOEL

- Faça o que achar melhor, da sua vida. Mas nunca perca de vista que continuaremos seus irmãos. Claro, com as nossas limitações. Uma família, mesmo unida, pode muito pouco contra as razões de Estado, de uma Nação que está envolvida num jogo de preservação do seu sistema político.


MABEL

- Disso eu já não tenho dúvidas. E até já perdôo meus irmãos. Mas já não sei como a eles retornar.


MANOEL

- Nem procure fórmulas. Isso virá, naturalmente. Desejo lhe dizer uma última coisa: o Estado pode ofender uma família, duas famílias, três famílias. Mas não a todas as famílias, sob pena delas mudarem o Estado. Do mesmo modo um homem pode ofender o Estado, e por isso pagará, sempre. Mas todos os homens, ou a grande maioria dos homens poderão ofender o Estado, e em tal caso o Estado é que será punido.


(Nesse momento Marinita volta e fica silenciosa diante de Manoel e Mabel. Manoel ri)


MANOEL

- Vamos sair que a Marinita está aperriada para arrumar a sala.


MABEL

- Pode ir, mano, eu ficarei com Marinita. Vou ajudá-la... (Manoel sai)


MARINITA (Curiosa)

- Conversaram muito ?


MABEL

- Mais ou menos. O assunto é interminável. Precisaria de um século para acalmar as minhas ansiedades. E viver esse privilégio é coisa para pouquíssimas pessoas.


MARINITA

- Mas a conversa foi boa ?


MABEL

- Conversar com Manoel é sempre muito bom.


MARINITA

- Ele sempre lhe chama de Mabelzinha. E lhe adianto: ontem, ele conversou muito com seus irmãos, lá no fundo do quintal. Eles cobraram de Manoel o silêncio que lhes foi imposto. Tanto que, reclamaram da dificuldade que tiveram com você. E o que mais me chamou a atenção foi o comportamento de Antonio, o mais emocionado de todos. Parecia um menino. Até chorava. Ele sempre foi assim: capeta, mais emotivo e bom. Aproxime-se de todos eles, aos poucos, que eles estarão de braços abertos.


MABEL (assustada)

- Não me diga que você acredita nas lágrimas de Antonio, justamente o Antonio.


MARINITA

- Acredito, sim. Apesar de tudo, das capetagens, ele foi o sustentáculo das dificuldades da sua família, O doutor Manoel, sozinho, não iria muito longe. Se você não sabe, e eu vou lhe dizer, os estudos seus, de Tácito, Fernando e Ricardinho sempre foram financiados por ele, sim senhora, dona Mabel....Dona Mabelzinha...


MABEL

- Isso ele sabe fazer muito bem...(Bota a mão no rosto e chora, de frente para a platéia)


MARINITA

- Cada homem faz o que sabe e o que pode. Estou na sua família faz muito anos. E não poderia deixar de lhe dar um testemunho favorável sobre o seu irmão. Família pobre é assim mesmo: um tem que ser fonte de ajuda para o outro. Primeiro foi o doutor Manoel. E olhe que o doutor Manoel tem um carinho especial pelo Antonio. Aliás, se há alguém no mundo a quem Antonio obedeça e siga todos os conselhos, essa pessoa se chama doutor Manoel.


MABEL

- Por que estas revelações de última hora ?


MARINITA

- Porque toda a sua queixa, resolvida com o Antonio, será facílima de ser resolvida com os outros. E chegar ao Antonio somente será possível através do doutor Manoel. Pare de brigar com os seus irmãos. Como aliados eles serão melhores para você. Deixe esta besteira de vê-los como heróis. Você já não é menina.


MABEL

- Até você, Marinita !...


MARINITA

- Precisamente eu, que lhe quero muito bem. Um dia morarei com você, caso você case. E até mesmo se ficar solteirona porque, com essas máguas, você, quem sabe, há de procurar um herói para se casar. E os heróis, minha menina, andam sumidos...


MABEL

- Agora você aprendeu a filosofar, Dona Nitinha ?


MARINITA

- Pois é, minha filha : de tanto ouvir vocês, ver os jornais e a televisão acabo aprendendo essas coisas. Mas antes de tudo isso tenho os meus instintos de observação. Porque não estudei não quer dizer que seja idiota, ou burra...


MABEL (Abraçando Marinita )

- Você não imagina como lhe amo. Nunca duvidei da sua inteligência. Ao contrário, sempre me assustei com as suas observações sobre as coisas. Perdão se, por vezes fui debochada...


MARINITA

- Que tolice. Que diferença isso pode fazer.( pausa ) Agora me ajude a fazer algumas arrumações. ( Em seguida grita para o interior da casa, de onde aparecem algumas pessoas e começa uma intensa rearrumação dos móveis. Ao final, Marinita puxa Mabel para um canto da sala : - Essas sabedorias de vocês e seus irmãos não me interessam. O que me interessa mesmo é ver você em paz com os seus irmãos. Não tenho dúvidas de que o Robertinho sairá da prisão. Nenhum dúvida. E estarei viva para ver isso. Você não precisa se desculpar com os seus irmãos. Eles são mais velhos e experientes que você e lhe desculparão...


MABEL

- Nossa Senhora, parece até que está havendo alguma conspiração...


MARINITA

- Caso esteja acontecendo não faço parte dela. O meu instinto me diz que vocês voltarão a um entendimento, basta que você não mais os agrida. E isso não muda o seu pensamento sobre o mundo, nem é preciso.


MABEL

- Você está sabendo de alguma coisa !...


MARINITA

- Pare de falar besteira: você sabe que não! E sabe, também, que deseja voltar ? s pazes com os seus irmãos e só não sabe como. Portanto, se houver uma oportunidade não jogue fora.


MABEL

- Fico a imaginar como será a vida de uma pessoa reconquistada. Por exemplo: que tratamento dará ? s suas máguas! Como será, outrossim, a atmosfera na qual ela aqueceu os grandes temas da sua vida, para, depois, esfriá-los por conta de novas conveniências, de novos esclarescimentos, de novas razões!


MARINITA

- Isso eu não sei. A minha vida sempre foi muito modesta. Nunca tive grandes temas em minha vida. A sobrevivência estava acima de todos os meus sonhos. Tudo o que eu sei é que você terá que pensar nessas coisas lá na frente, com a cabeça mais fria...


(A sala está pronta. O bolo de festa está no centro da sala. Marinita e Mabel olham tudo com grande alegria. Abraçam-se e saem. Luz pode apagar em resistência o tempo necessário para a entrada dos Senhor Prudente e D. Inocência, em seguida os irmãos, com suas mulheres e filhos e, por fim, Mabel e Marinita. O Senhor Prudente ocupa o centro dos acontecimentos, em torno da mesa onde está o imenso bolo. Parece sereno e alguma música, suave, poderá estar tocando. Ele mete a mão no bolso do paletó e retira o seu discurso. Ri e gesticula, como a pedir desculpas pela mania de fazer discursos)


SENHOR PRUDENTE

- Sempre tive a mania de fazer discursos. E farei mais um. Poderá ser o último. Afinal, eu não deixaria passar tal oportunidade. Cinquenta anos de casamento é alguma coisa extraordinária. Vou tentar ser objetivo. (Alisa a cabeça de D. Inocência).

"Parece que foi ontem. Mas longos anos são passados. Eu e Inocência estamos inseridos num grande hiato do tempo, unidos. Mas o tempo, também, e aos poucos, vem nos consumindo. Somos dois velhos. O nosso circulo da vida está se fechando. Não temos angústia, por conta disso. Ao contrário, dentro de tal circulo estão vocês. E não nos foi fácil acompanhar todo o desenvolvimento de vocês: as mudanças sociais, a Universidade, as nossas dificuldades e tudo o mais que até podemos relegar de comentários. Analfabeto até os vinte anos de idade, sei como me foi difícil ter alguma esperança no futuro. Graças a Deus havia o ensino público, sem o qual eu jamais teria realizado o mínimo do meu sonho tardio. (pausa. Olha para todos)

Nos meus silêncios os acompanhei em suas formações universitárias. O volto a agradecer a Deus pelo fato de que as faculdades eram públicas. Sim, porque, não fosse isso, vocês jamais teriam se formado. Muitas vezes, meu caro Marquinhos, andei folheando os seus livros de Direito, da biblioteca da Faculdade. Ou então aqueles que você adquiria nos alfarrábios. Chequei mesmo a me imaginar defendendo alguma cliente, alguma causa nobre. De outras vezes li a Bíblia e os livros de religião, meu caro Ricardinho, que você trazia, de empréstimo, do Seminário. Com relação a você, meu caro Tácito, também lia seus romances e livros de poemas, que você adquiria na livraria do Enéas, ou então nos alfarrábios. Acompanhava, preocupado, meu caro Antonio, todas as suas peripécias comerciais, quando você sonhava ser um próspero comerciante. Você não sabe quantas vezes me arrependi das surras qaue lhe dei por conta das suas loucuras, das suas trapalhadas. Ninguém me deu mais trabalho que você, meu caro Antonio. Mas eu sabia do seu grande coração. E você não me enganou: você me provou isso e todos recisam saber disso, que sua ajuda para os demais irmão foi enorme. E, mais grave: você me pedia para nada revelar a eles. (Volta-se) - Ah !, meu caro Fernando, quantas vezes eu o imaginei um general comandando nobres batalhas em prol do nosso país! E imaginem como eu me sentia vendo e imaginando o meu caro Manoel operando milagres numa sala de cirurgia. ( pára e olha para todos ) E até mesmo, imaginem vocês, andei pelas selvas e montanhas acreditando que Robertinho tinha alguma razão quando imaginou salvar o nosso país pela revolução armada. Enfim meus caros filhos, cheguei mesmo a formular teorias filosóficas, quando pensava na minha querida Mabelzinha, com as suas aflições dos últimos anos.( Pausa ) Tenho sido um tolo, ou apenas um pai apaixonado pelos seus rebentos ? Não seu sei ! E prefiro nunca sabê-lo...


(Marinita aproxima-se e dá um copo com água ao Senhor Prudente. Ele aceita. toma um pouco de água. Ri. e continua)


"Muito bem: mas do nosso universo um astro se desgarrou, embora continue preso a todos nós, pelas emoções, pelos afetos e pelo sangue. Eu sempre soube que vocês cresceriam e assumiriam compromissos com a sociedade. E aconteceu, dentro dos limites razoáveis. Robertinho, entretanto, foi mais além: quis mudar a sociedade, como se fosse algum predestinado. Vocês não sabem, mas ele me pediu para não constituir advogado de defesa, para o seu gesto, sob a pena de que as nossas relações se deteriorassem, ainda mais. Ele queria assumir toda a responsabilidade do seu gesto. E mais: não queria, segundo me disse, envolver qualquer dos irmãos com os seus problemas. Ele havia crescido, sob os meus olhos, e eu não havia percebido que estava lidando com um homem e não mais com um menino rebelde. Prometi que lhe atenderia, em tal pedido. Tive dúvidas, quando concordei com ele. Você, meu caro Antonio, colocou dinheiro ? disposição para se contratar um advogado e disso está lembrado...” (Mabel parece muito emocionada. Olha para Antonio, incrédula. O senhor Prudente puxa Mabel para perto dele e a abraça. Mabel se mantêm cabisbaixa. Marinita vem em seu socorro. Retira-a do braço do Senhor Prudente. Mabel descansa a cabeça sobre o ombro de Marinita. O Senhor Prudente continua)


"Robertinho, enfim, já era um homem. Talvez muitos ainda não o saibam, mas o visitei muitas vezes e isso fiz em nome de todos vocês, que achava péssimo esse corre-corre de vocês, morando distante de Maceió. ( Pausa) Ele até, um dia, chorou, lamentando pela nossa família. Mas as suas idéias estavam cheias de alguma coisa estranha, quando me passava raciocínios sobre a universalidade dos seus sonhos. E confesso-lhes que que me senti um tanto cúmplíce dos seus sonhos no momento em que concordei deixá-lo sem advogado de defesa, acreditanto que ele realmente havia atingido a maturidade.

O mundo e o tempo julgarão Robertinho. E não deverei estar por aqui. Durante anos imaginei uma frase que bem dissesse do meu sentimento sobre vocês e o mundo. (pausa. Olha para todos)
"Eis, portanto, o que desejaria Robertinho também ouvisse: "Levarei para a eternidade a eternidade deste instante..."


Todos batem palmas e se abraçam. O Senhor Prudente abraça D. Inocência e coloca, na sua mão, a espátula para que ela corte o bolo.

A luz vai apagando em resistência. Antonio dirige-se para Mabel e coloca a mão direita sobre o seu ombro e ela beija a sua mão. Marinita, quando a luz vai tornando difícil ver as pessoas, afasta-se de Mabel que, coloca a mão sobre a mão de Antonio...

Com o palco escuro, antes de descerem as cortinas ouve-se a mesma voz quer iniciou o espetáculo:


VOZ

- A violência é direito do homem ? Do Estado ? Da Família ? De quem, afinal ?....





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