Luiz Nogueira Barros
   
   
 nogueirabarros35@gmail.com  
.
         
Luiz Nogueira Barros
   

_____________

. Principal

. Notícias

. Entrevistas

. Crônicas

. Contos

. Poesias

. Ensaios

. Fábula

. Teatro

. Fallas
  Provinciais

. Governadores
  da República

. Mensagens
  Presidenciais

. 2ª Grande
  Guerra

. In memoriam

_____________

. Maceió

. Manifesto dos
  Estudantes

. Sessão Solene
  de Instalação
  da Ufal

_____________

. Sobre o Autor

_____________

 
 



Visitantes:

contador de visitas

 

TEATRO




21/11/2009 - 21h14min

As Bodas do Senhor Prudente - ATO I


Fonte: Luiz Nogueira

Sala de espera: cristaleira, onde se vê um relógio. Um Sagrado Coração de Jesus, na parede. Mesinha com telefone. D.Inocência repousa, numa poltrona. Centro, mesinha, com um jarro de flores. Amanhece. Os raios solares entram pela janela lateral. Opção musical para a manhã nascente, com luz em resistência: livre.


VOZ

- Estados de exceção não são privilégios de latitudes e longitudes.Ocorrem em qualquer ponto do planeta. E sempre deixam marcas indeléveis. Eles sugerem a seguinte meditação: a violência é um problema meramente político, ou faz parte da lógica das mudanças ?... (silêncio)


MARINITA

(Entra.Olha para D.Inocência. Benze-se, diante do Sagrado Coração de Jesus. D.Inocência acorda-se e olha para Marinita)

- Mas não é possível. Logo hoje, que a senhora precisa amanhecer bem disposta.Vai ver que nem dormiu.


D.INOCÊNCIA

(Um tanto alheia)

- Verdade. Não dormi bem. Eu não queria perturbar o sono de Prudente. Mas faz pouco tempo que estou aqui.


MARINITA

- Mas hoje a senhora precisar de muita energia. E ainda pode dormir um pouco mais.Vamos para a cama ?


D.INOCÊNCIA

- É quase dia. Olha lá os raios solares...(aponta)


MARINITA

- Estou vendo. Melhor razão para a senhora aproveitar e descansar um pouco mais. A festa será longa. Bodas de Ouro é uma festa para poucos. Vamos repousar.


D.INOCÊNCIA

- Tolice, Nitinha. Tantos a comemoraram. Eu estou bem.


MARINITA

- Mas não lhe custa nada um pouco mais de repouso.


D.INOCÊNCIA (Respirando fundo)

- Acho até que estive sonhando. Fique comigo. Sente-se ao meu lado.



MARINITA (Obedece)

- Depois não diga que não insisti. E quando estiver a cochilar pelos cantos da casa não reclame.


D.INOCÊNCIA (mandona)

- Ora, menina,deixe-se de tolices.


MARINITA ( Evocativa)

- Quanto tempo faz que a senhora não me chama de menina. Quanto tempo.


D.INOCÊNCIA

- Quanto tempo! Acho que hoje você está me parecendo aquela Nitinha brigona e cheia de ordens. Você era assim, quando menina. E nem parece ter aprendido que os velhos são teimosos.


MARINITA

- Eu só estava preocupada.


D.INOCÊNCIA

- Eu sei disso.E você tem razão.E tem um certo direito de mandar.Vôcê é da família.Ou tem dúvidas?


MARINITA

- Claro que não. E isso me faz feliz.Mas o dia está claro. Isso me preocupa.


D.INOCÊNCIA

- E o que mais você fez durante estes anos, senão se preocupar com a minha família !


MARINITA

- E eu tinha mais o que fazer ?


D.INOCÊNCIA

- Isso eu tenho me perguntado.


MARINITA (Mudando de assunto)

- Logo, os meninos estarão chegando.


D.INOCÊNCIA (Rindo, discretamente)

- Meninos,meninos! Que meninos, Nitinha ?


MARINITA

- Não consigo vê-los de modo diferente.


D.INOCÊNCIA

- Claro. Para alguns deles você foi uma segunda mãe.


MARINITA

- Pode ser.


D.INOCÊNCIA (Divagando)

- Você talvez nem se lembre mais do dia em que veio para a minha casa.


MARINITA

- Por que eu me esqueceria ?


D.INOCÊNCIA

- Você era muito criança.


MARINITA

- Mas me lembro: a minha mãe havia morrido ! Meu pai distribuía os filhos entre os parentes. Pensando que, indo para São Paulo se daria bem.


D.INOCÊNCIA

- E se deu.Tanto que, mandou buscar todos os filhos logo que lhe foi possível.


MARINITA

- E eu não quís ir, tanto apego já tinha pela senhora.(pausa) E pela Mabelzinha...é claro ! E eu, a mais velha, não gostei do fato de meu pai haver casado outra vez.


D.INOCÊNCIA

- E se esqueceu até de arranjar um casamento.


MARINITA

- Coisa da vida. Não tinha de acontecer.


D.INOCÊNCIA

- Amém. Deus tenha em conta suas palavras.


MARINITA

- ELE sabe o que faz, estou certa disso.


D.INOCÊNCIA

- E eu sei dos meus partos, das minhas doenças e sobretudo do monte de filhos que tive. E que você os criou. Os últimos, é claro.


MARINITA

- O meu destino estava escrito. E sem casamento.


D.INOCÊNCIA

- Mas ainda me sinto um pouco culpada.


MARINITA

- Que tolice. Se eu me sentisse infeliz, a senhora teria teria razões para preocupações. Vamos descansar um pouco.


D.INOCÊNCIA (Com suavidade)

- Não há mais tempo. Pode ir.


MARINITA (Levanta-se)

- Perdi meu tempo.


D.INOCÊNCIA (Curiosa)

- Tenho certeza de que Mabelzinha foi a maior razão de você haver ficado até hoje comigo.Ou não ?


MARINITA (Meio fora do mundo)

- Um dia irei morar com ela. Já fui convidada.


D.INOCÊNCIA

- Eu diria até que este dia não está muito longe.


MARINITA (Surprêsa)

- A senhora vai viver muito.Tão cedo não imagino perder a minha segunda mãe. Ave Maria!


(Nesse momento ouvem-se passos.Marinita e D.Inocência apontam na direção da porta da sala de espera.)


D.INOCÊNCIA

- Dever ser o Prudente.


MARINITA

- Com certeza.


(Entra o Sr. Prudente,ainda de pijama. Risonho. Beija D.Inocência.Abraça Marinita)


Sr.PRUDENTE

- Ah! Como o dia está bonito. Parece mesmo de encomenda. Não sei o que deu você para tão cedo sair da cama. Isso é coisa de mocinhas. Hoje você precisa estar muito descansada.


MARINITA

- Ela está bem, apesar da teimosia.


Sr.PRUDENTE

- Sempre escondendo as coisas...sempre !


D.INOCÊNCIA

- Não fale assim com a Nitinha. Ela está certa. Eu estava sem sono e não queria lhe incomodar.


Sr.PRUDENTE

- Não estou censurando a Nitinha, ela sabe disso. (Afasta-se.Fala como se fala-se para si mesmo e um público imaginário)

- Hoje eu tinha motivos para não dormir: A minha vida feliz com Inocência ! Mas estou velho e cansado. As mulheres são mais românticas e resistem melhor, nestes casos, basta que se veja a Inocência.


MARINITA (Aproveitando a ocasião)

- Preciso sair...(beija a mão do Sr. Prudente)


Sr.PRUDENTE (Voltando a si)

- O que deu nessa menina ?


D.INOCÊNCIA

- Parece que você não conhece a Nitinha. Ela evita nos atrapalhar. Sempre foi assim.


Sr.PRUDENTE (Meio perplexo)

- Ela me pareceu apressada demais !


D.INOCÊNCIA

- Já lhe disse que ela jamais gostou de se demorar entre nós.Ou está esquecido?


Sr.PRUDENTE

- Isso é verdade.Mas o beijo na mão ?


D.INOCÊNCIA

- Francamente, Prudente, como vocês homens são desligados e por vezes insensíveis.A Nitinha deve estar lhe dando parabéns.Afinal,que dia é hoje ?


Sr.PRUDENTE

- Deus há de me perdoar a falta de sensibilidade.


D.INOCÊNCIA

- Com certeza.


Sr.PRUDENTE

- Mas ela sabe o quanto a amo.E o que seria de nós,dois velhos rabugentos,sem essa menina quase-velha!


D.INOCÊNCIA (Ri, discretamente, e faz pequena pausa)

- Você dormiu bem ?


Sr.PRUDENTE

- Como um anjo.Talvez não o devesse.Teria motivos,e como teria,para evocar lembranças e não dormir.Muitas vezes me sinto um grosseirão.Tento reagir.Mas a velhice me dobrou.


D.INOCÊNCIA (Levanta-se.vai até a janela.olha.Volta-se)

- Não fiquei acordada apenas pelas recordações.Elas também me tomaram a noite,é certo,e de modo maravilhoso...


Sr.PRUDENTE (Passando a mão no rosto)

- Fora disso foi a preocupação com Robertinho.


D.INOCÊNCIA

- Não há como esconder.


Sr.PRUDENTE (Abrindo as mãos e gesticulando nervosamente)

- Claro que não.E nem quando isso passará.E nem se haverá tempo para isso.Um de nós,quem sabe,ainda poderá estar vivo.E prefiro que seja você.


D.INOCÊNCIA

- Por que eu ?

Sr.PRUDENTE

- Sofro muito. Mas o seu sofrimento é maior.


D.INOCÊNCIA

- Será como Deus quiser. Mas agradeço a sua lembrança e preocupação. E até lá será como se o tempo nunca houvesse existido, se eu estiver viva.


Sr.PRUDENTE

- O tempo é coisa vaga,minha querida.(faz um gesto com a mão tentando aprisionar o ar).Está vendo? Nada consegui aprisionar.Onde está o tempo ?


D.INOCÊNCIA (Passa a mão nos cabelos de Prudente. Ri )

- Aqui, nos seus cabelos, seu tolo.(Passa a mão levemente no rosto de Prudente). E aqui também, nas suas rugas. E menos invisível do que você pensa.


Sr.PRUDENTE (Efusivo, abraça D. Inocência )

- Como ainda estou apaixonado. Como estou, cada vez e cada vez mais.


D.INOCÊNCIA (Beija Prudente e vai até a janela)

- Lá fora o tempo flui, inexoravelmente. O que seria o tempo para quem está condenado ? prisão perpétua?


Sr.PRUDENTE) (Disfarçando)

- Inocência, o dia está lindo. Parece de ouro.Sei que a ausência de Robertinho lhe comove. Mas hoje eu lhe pediria, como presente de bodas, que você se faça leve e feliz.O dia parece ter sido encomendado. Não bastasse isso, os nossos outros filhos estão conosco. Alegres. Apenas Mabel e Ricardinho não chegaram.


D.INOCÊNCIA

- Claro.Claro.Vamos entrar.O café já deve estar posto.E mesmo eu preciso melhorar o meu aspecto. Preciso estar bem.Vamos...(Os dois saem, de maõs dadas)


MARINITA (Entra e fica sozinha na sala. Fala para a platéia)

- Finalmente, apenas Mabelzinha e Ricardino ainda estão por chegar.Hoje a solidão desses dois velho será menor.(Ouvem-se batidas na porta.Marinita atende e ao abrí-la tem a boca tapada por uma das mãos de Mabel,que a surpreende.Reage e liberta-se.)


MABEL (Com o indicador sobre os lábios gesticula)

- Não fale.Calma.Não quero que saibam que cheguei. Ao menos por enquanto...


MARINITA (Assustada)

- Você perdeu o juízo, menina?


MABEL

- Calma, que eu lhe explico.


MARINITA (Ainda afobada)

- E por acaso maluquice tem explicação?


MABEL

- Não é maluquice.Eu lhe vi, pela vidraça. Devia ter tocado a campainha, sei disso.Mas eu precisava falar primeiramente com você.


MARINITA

- Deus me dê paciência para lhe entender. E a sua bagagem é essa sacola ? Onde está o resto ?


MABEL

- Não tem mais.Vou demorar pouco.


MARINITA (Com ares de censura)

- E vem de tão longe só para isso?


MABEL (Impaciente)

- Calma, Nitinha, calma.Ainda nem pude falar, que você não deixa.


MARINITA

- Eu só quero saber quando você vai parar com as suas maluqices.(pausa).Fale...fale !


MABEL

- Pelo menos me abrace.Afinal,eu estou aqui.


MARINITA (Mais descontraída)

-Sempre assim.No final a culpa termina sempre comigo.Eu é que sou a brigona...(abraça Mabel.Depois, autoritária,mostra a cadeira para Mabel).

- Sente-se. Vamos conversar um pouco. Está cansada ?


MABEL (Atende)

- Claro que não estou cansada.Estou apreensiva.


MARINITA (Severa)

- Claro: você sempre apronta alguma coisa.


MABEL (Alheia)

- E os meus pais,como estão ?


MARINITA

- Estão bem.Seu pai até deixou de fumar, por recomodações do Dr.Manoel e pedidos da sua mãe.


MABEL

- Já chegaram todos ?


MARINITA

- Maioria chegou ontem.Com a sua chegada falta apenas o Ricardinho.Mas deve estar chegando.


MABEL

- E o que têm feito ?


MARINITA

- Passam o tempo em conversas, lá no quintal.O seu pai fica todo prosa.Vamos entrar?


MABEL

- Ainda não.Tem mais umas coisas.


MARINITA

- Eu sabia.Você chegou toda misteriosa...


MABEL

- Sei disso. Mas preciso saber o estado de espírito dos meus irmãos.


MARINITA

- Depois do que você aprontou com eles após a prisão de Robertinho não estranho a sua preocupação.


MABEL

- Eu tinha minhas razões.


MARINITA

- Mas também não precisava agredir. Você foi dura e eles não devem estar esquecidos. Mas lhe garanto que eles estão bem.


MABEL

- Diga mais alguma coisa. E o Marcos ?


MARINITA

- Nada demais.Vive aos abraços com o seu pai e aos beijos com sua mãe. Adorou o fato do seu pai haver parado de fumar.


MABEL

- Isso foi ótimo. E o meu pai ainda não perdeu aquela mania de brincar, chamando-o de "Dr.Advogado?".


MARINITA

- Claro que não. Sempre que brincam citam leis. Aquela história de "Dona lei" é sempre motivos de risos entre os dois. Seu pai sempre repete: "A lei acima de tudo !"


MABEL

- Isso é típico do meu pai.


MARINITA

- Durante todo o ano chegam telefonemas perguntando por você.Você não se comunica com eles ?


MABEL

- Nem sempre. Telefonemas estão caros. E não gosto de telefonar a cobrar.


MARINITA

- Essa desculpa não convence.Para o Dr. Manoel sei que você telefona.


MABEL

- Não posso negar isso.


MARINITA

- Não pode mesmo. E não devia fazer o mesmo com os outros ?


MABEL ( Evasiva)

- Eu quase que não vinha para a festa. Saiba que ligo para os demais irmãos. Eles também ligam para mim. Com o Antonio tem sido mais difícil, claro.


MARINITA ( Com certo espanto)

- E que desculpa daria para não vir para a festa?


MABEL ( Ainda ausente)

- Sei lá. Qualquer coisa. Uma doença.


MARINITA

- Para o Dr.Manoel ir correndo ao seu encontro. Seu próprio pai faria o mesmo. Apesar da velhice ele está bem disposto.


MABEL

- Verdade. Eu teria que arranjar outro motivo. Difícil, não Nitinha?


MARINITA

- No fundo você tinha era medo de novamente aprontar alguma coisa com os seus irmãos. Ou não?


MABEL

- Não.Não acredito. Aquilo já passou.


MARINITA

- Preciso confiar no que você me diz. Como preciso.


MABEL

- Pode confiar. Mas para isso preciso ficar um tanto longe do Antonio.


MARINITA

- Mas não exagere. Ele pode desconfiar.Ele é assim mesmo.


MABEL

- Estou mais experiente. Você verá.


MARINITA

- Quero ter essa alegria.


MABEL ( Afetuosa)

- Você é a minha segunda mãe.


MARINITA

- Você sempre me diz isso. Eu acredito e fico sempre muito alegre.


MABEL (Mudando bruscamente de assunto)

- E o Fernando, como está?


MARINITA (Abraçando Mabel)

- Já dá para pararmos um pouquinho. Ele está bem. Sempre sério. Ainda ontem o ouvi responder uma pergunta do seu pai sobre como ia o mundo.


MABEL

- Estou curiosa.


MARINITA

- Ele respondeu que o mundo era o mesmo.As roupagens, as vestimentas, é que haviam mudado.


MABEL (Divagando)

- Ele seria um bom estilista.Ah, se o mundo fosse apenas mudarmos de roupa e tudo bem, a felicidade, etc..etc.


MARINITA

- O que, menina ?


MABEL

- Nada não. Estava pensando numa coisa.


MARINITA

- Vamos parar. Não vou responder mais nada.


MABEL

- Só mais uma...


MARINITA (Decidida)

- Acabou. Mas lhe adianto que Antonio está com aquela mania de reclamar de tudo. Mal chegou e foi logo reclamando da distância da viagem.


MABEL

- O problema dele é de contabilidade: lucros e perdas !


MARINITA

- O que?


MABEL

- Esqueça isso, tá bem?


MARINITA

- Já o Dr. Manoel vive cercado por todos. Parece o Papa. Diante dele o seu pai parece um menino.Tácito fala muito pouco. Desde que chegou está sempre a telefonar para os amigos.


MABEL (Misteriosa)

- Que bom !...


MARINITA (Curiosa)

- Você está muito misteriosa.(Pausa.Aponta para o telefone) Naqueles dias tumultuados ele não parou de tocar. Quanto a amigos posso lhe dizer uma coisa: eles existem, mas é preciso saber encontrá-los.


MABEL (Alheia)

- O Ricardinho?


MARINITA (Mudando do assunto anterior)

- Ele não deve demorar. ( Interrogativa, para Mabel) Depois de toda essa conversa ainda não sei se você cumprirá sua promessa. Se existe ainda algo para falarmos desembuche agora.


MABEL

- Hoje é um dia especial.Estou aqui para uma festa também especial.


MARINITA

- Amém. Para isso devem estar servindo os seus es tudos de filosofia.(Pausa) Até que sinto falta das suas tempestades. Mas isso do tempo em que eu podia lhe dar umas palmadas.


MABEL (Rindo e mostrando as nádegas)

- E ainda pode.Estou ? s ordens.


MARINITA (Séria)

- Isso não teria mais graça. Faz tanto tempo. Mas, e isso eu garanto, andei lhe curando de algumas atitudes debochadas. Sua mãe me mandava fazer isso. Ela pensava que morreria logo e que eu cuidaria de você. Mas, sempre foram palmadinhas, diante do que você precisava receber.(As duas riem e se abraçam)


MABEL (Séria)

- Será que tudo passou, de fato ? Não acredito. Perto de você me sinto menina,outra vez. E não consigo , mesmo que o desejasse, resistir a esse fato.


MARINITA (Pensativa)

- Só lhe vejo como uma filha.


MABEL

- O meu amor é muito grande por você.


MARINITA (Encabulada)

- Vamos entrar. Logo nos ouvirão...


MABEL

- Vamos...


MARINITA ( Divagando)

- Você já nasceu berrando. Parecia mais uma cabrita. Sempre foi braba. Robertinho nasceu depois e dava a impressão de que seria um menino calmo. Mas, com o tempo, se revelaria um "capeta".


MABEL

- Lembro-me muito bem de tudo isso.


MARINITA

- Tudo voltará ao normal, tenho certeza.


MABEL (Espantada)

- Como, criatura, se Robertinho está condenado ? prisão perpétua?


MARINITA (Desdenhosa)

- Que besteira, menina. Isso de prisão perpétua não passa de uma grande idiotice. A única coisa pérpetua que conheço é o mundo. E nem sei se um dia não se acabará. Isso de prisão perpétua é invenção dos homens. E portanto pode e será mudada por outros homens.


MABEL

- Mas isso pode demorar muito, Nitinha.


MARINITA (Misteriosa)

- Por isso é que tomei algumas providências.


MABEL (Perplexa)

- Mas que providências, criatura ?...


MARINITA (Segura)

- Ora, menina. Que providências? Você pode até não acreditar: fiz uma promessa que santo nenhum vai poder evitar de me atender. Você verá...


MABEL (Ri e abraça Marinita)

- Só você mesmo, Nitinha, me faria rir.


MARINITA

- Então você não acredita ?...


MABEL

- Desculpe, Nitinha, desculpe. Já estou meio descrente. Foi isso. A vida...o cansaço...


MARINITA

- Não duvide, que isso é pecado. A promessa é seria. Eu tenho merecimentos e o santo não tem saída.


MABEL ( Séria)

- Amém, Nitinha. Amém!...


Nesse momento ouvem-se batidas na porta da frente. Marinita atende. Abre a porta. Ricardinho entra. Está vestido de padre. Abraça Marinita. Olha para Mabel. Cumprimenta-a. Depois lhe dá um beijo, com ternura. Mabel também o beija.Ricardinho tem apenas um sacolão como bagagem. Os três se abraçam e seguem para o interior da casa. Ainda se ouve a voz de Ricardinho:

- Espero que tudo esteja e ocorra em paz...


(Luz apaga em resistência)





Não foi possível realizar a consulta ao banco de dados