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CONTOS




21/11/2009 - 16h56min

A que me desvendava mistrios

Uma sacerdotisa negra...

Fonte: Luiz Nogueira Barros



Da margem esquerda do rio Ipanema a pequena montanha, conhecida como serra, irradiava mistrios e uma cor azulada, contornada pela estrada velha que dava acesso a Olho Dgua das Flores. Vista de perto, entretanto, era recoberta por uma vegetao mida e sem graa. Por vezes, ali ou acol, uma rvore de maior porte ou um mandacaru quebravam a sua monotonia. L no topo, um Cristo de cimento vigiava a cidade. E naquele ponto as rvores eram mais numerosas e at faziam sombras. Dos seus mistrios, a serra escondia aquele que dizia sobre o fato de, por vezes, Lampio chegar at ali, descansar, orar pela santa da sua devoo, Senhora Santana, e depois ir embora calmamente, sem molestar a cidade e sem ser molestado pela polcia. O outro mistrio dizia respeito marca de um p esculpido numa imensa pedra. Entre sussurros, as pessoas diziam tratar-se da marca do p Cristo. E que a marca ficara por conta das suas andanas pela terra.

Um dia, numa excurso com Nilton e Ernande, subi a serra pela lado mais difcil. Foi um desafio iniciado pelas oito e completado por volta do meio-dia, num sol causticante. Alm dos mistrios da serra, pretendamos saber, tambm, se havamos acertado alguns tiros de fuzis, disparados contra o Cristo, do fundo de quintal da casa de Nilton, pertencentes ao seu pai, velho soldado do "Comando de Caa a Lampio", esquecidos em sua casa, descalibrados. Um dia esperamos que ele sasse de casa e fizemos alguns disparos na direo do Cristo. Depois, experimentamos um sentimento de culpa. Ainda que estivssemos convencidos de que o Cristo era apenas de cimento e que talvez nem fosse bento, (benzido, diziam alguns), nosso sentimento de culpa nos forou a tal expedio. E at levamos um pouco de cimento para, no caso do Cristo estar ferido, fazer-lhe o reparo necessrio. Mas ele estava l, intocado, sem ferimentos, apenas gasto pela ao do tempo. O nosso sentimento de culpa acabou, mas a nossa frustrao de maus atiradores redobrou.

Depois, fomos explorar a serra. Por minutos ficamos olhando a cidade, que nos parecia longnqua e inacessvel. E discutimos a possibilidade de at estarmos sentados nos mesmos lugares onde um dia Lampio e seus cabras tambm estiveram. Fomos ver a pedra com o p do Cristo. E l estava ela com uma marca parecida com a de um p, semelhante ao direito. O fato nos intrigou. E Nilton, pensativo, nos indagou:

- Por que s um p? E o outro?

Ernande ficou srio. Tambm no respondi. Mas Nilton continuou, colocando o seu no p na forma do p esculpido na pedra:

- Tudo mentira! O meu no se amolda a este aqui.

De fato, tambm no se amoldaram nem o meu nem o do Ernande, quando tentamos. A crena de que qualquer p al colocado se amoldava ao esculpido na pedra, para ns, acabava de ser desmistificada. E uma imensa decepo nos acompanhou durante o regresso da expedio.

Durante a noite perguntei para To, a velha empregada:

- Voc acredita naquela histria do p do Cristo?

E ouvi:

- Claro! Mas isso j faz tanto tempo que o p esquerdo j se apagou. Quando o direito se apagar ser o dia do juzo final. Alguns tolos, e at mesmo alguns idiotas, pensam que os seus ps se ajustam ao do Cristo, l da pedra. Pura crendice! Ningum pode ter o p igual ao do Cristo. Acreditar nessa tolice chega a ser um pecado!

O Dirio, 25.02.96




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